quarta-feira, 8 de junho de 2011

Renascimento

Não, agora não!!!
Não, esse momento me pertence!
O clarão se anuncia, minha pele se reverbera, minhas vísceras...

Não, agora não!
Deixa-me sacramentar o criar, o respirar, o sentir meu desejo, a carícia que
me acaricia.

Não, agora não!
Eu preciso hoje orar, cantar, amar, gritar o meu nome
Não, agora não...
Deixa-me com meu instante, com as minhas ínfimas certezas advindas,com os
meus insignificantes e limitados progressos... 
Quero ficar longe das pressões e dos rancores.

Cale-se!
Não me atordoe.
Por que vou abrir meu ventre, tenho que costurar meu peito dos afetos rotos,
dessa cumplicidade insana....
Tenho que remendar cada vão soluço, 
cuspir cada gota do vinagre que elaboramos.

Não, agora não...
Quero hoje trilhar a aurora, me espreguiçando sem mágoas, com o sorriso
sereno de quem colhe rosas.
Sentir a terra na sola do meu pé, deixar o vento me castigar com lambadas de
chuva, lavando da alma o tudo que não lhe fui,

Quero sentir a chuva batendo no meu rosto, desatando a indecisão
insuportável dos receios, dos medos, das claudicações...
Quero enxergar o ser que sempre trouxe nas entranhas, destrancar com esta
chave a porta do medo, regozijar com o meu amanhecer. 
Quero a leveza desta madrugada, imersa no silêncio dos momentos mortos. 

Um novo alvorecer:a criança já dormiu....
O padeiro já trouxe o pão,
O leite está quente.
Há um fogão de lenha que traz de volta a minha simplicidade e pureza. 
Vou enxergar agora o mais primitivo do meu ser, como quem acorda e espreguiça e
nasce como um rebento, sujo de sangue, que chora e ecoa seu vagido de liberdade.
A liberdade sofrida, evadida da clausura do medo, que aspira e rasteja,
mas que sorve da teta da vida, que explora o cheiro da terra e rejeita o
azedume do vomito transformando-o em adubo da nova vida...

Estou saindo da aspereza eternizada para a digestão do sentimento e da
beleza, e veja: é da dor estancada que farei emergir o grande
pássaro!

Não, agora não...
Hoje sou pássaro e quero voar, vou sair do seu território, da sua
estreiteza medíocre e avarenta, agora vou ultrapassar a linha do seu
poder.
Não, agora não....
Quero dançar na memória da nossa vida, rasgar seus compêndios estragados,
urinar o suor frio do passado e acalentar este meu doce amanhecer com um
suspiro e um beijo, enquanto piso na relva molhada que é a trilha do nosso
adeus.

The end

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sinfonia das emoções

 Vida, um assalto à mão armada... saimos ilesos, quando em trincheiras das sabedoria, 
imersos nos escombros da arte, buscamos refúgio na orgia dos prazeres, 
caindo do céu de Pirandello, sendo acariciada pelos anjos de Botticelli, 
nos fartamos da comilança do viver, e abrigo na louvação...


Emoções aprisionadas vociferam em coros rastejantes,  
do Requiém de Mozart  em lamentos crus dissonantes
amores  cortantes se rompem como cristais reluzentes,
em  jazigos noturnos jazem doentes-condolentes...

Dores encarceradas se banham em rios congelados,
clamando  novas nascentes em tons clareados,
êxtases de almas depuradas se contorcem em arrepios,
ressuscitando mares abertos e vertentes de novos rios.

Em taças transparentes são servidos corações servis,
com seus  coágulos  empretejados de  agonias senis,
em bandejas oferecidas  para todos os presentes,
emoções esquartejadas, primitivas, irreverentes.

Insubordinadas, irrompem como forças propulsoras,
escravas da razão, se alimentam em manjedouras,
apropriadoras vorazes de mentes em ebulição
da inquietude danosa gemem na sofreguidão.

Na complacência danosa buscam a harmonia,
como seres em ebulição uma nova sintonia,
na suavidade do despertar crepuscular do novo dia,
transmutam emoções horrendas, numa linda sinfonia.

Misturam dor com amor, argila com tequila,
flores em solidão, escravidão com coração,
germinam em novas linhagens, com novas roupagens,
em pedaços de espetos emergem como novas coragens.


The end

Beijos gulosos

 Beijos, carícias e amorosidades explícitas são como chuvas, 
que encharcam um canteiro de rosas e não eximem o viço, 
a beleza das flores umedecidas.


Com a boca entreaberta, me afundo entre cobertas,
entre  beijos saborosos, lambo beiços fogosos,
mordisco a língua entre a  aflição e a sofreguidão,
com o peito ofegante sofro um delírio alucinante.

Com açoites de amor respingo  nuances de dor,
salivo clandestinos dissabores e novíssimos amores,
línguas submergindo em oceanos de volúpia,
carnes latentes escorregam, farejando  novas núpcias.

Dispo o frenesi da agonia, e desemboco na orgia,
com arrepios latentes, ranjo meus dentes latentes,
como  flores descobertas nado em mares abertos,
entre desejos contidos, vocifero ruídos e gemidos.

Amacio peles arrepiadas, entre a comoção e o nada,
desanuviando toda dor, invoco duendes e fadas
cajados e varinhas mágicas se dispersam em multidão,
ante o esfacelamento da emoção, ajoelho em comoção.

Rogo a eternidade esse amor de instantes,
alimento visceral de desejos flamejantes
vejo luzes dançantes rodeando seres amados
entre um céu aberto de infinitos desnudados...

Com rituais harmoniosos, clamo seres fervorosos,
descubro a cama na lama, e me despeço  da fama,
com fogos de artifícios, despeço  amores fascistas,
metamorfoseio dores de amor em flores  ametistas.

Entre beijos gulosos retalho a dor esbugalhada
sorvo sua língua, sua saliva, e dou uma gargalhada,
engulo seu gosto, degustando substancias milagrosas,
transformo minha boca sedenta num jardins cheio de rosas.



The end

O que me resta

Resta então o  frescor de liberdade,
o vento gelado  no rosto
os pedaços de vida, da irreverente vida que acabou jogando-se ao lixo,
as borboletas azuis e vermelhas voando num céu caramelo,
o inverno dos vencedores com o inevitável encontro com os frios de alma.

As hortências azuis com gotas gélidas do orvalho,
encostadas no desfiladeiro, acobertadas pelo sol pálido de fins outonais,
os suplícios e suplicantes de almas condoídas
garantias efêmeras dos girassóis da Rússia...

Assovios  velados de mocinhos e bandidos,
o beijo molhado do fantasma solitário,
um canto da vida escondido em um  resto de mundo,
o lamuriar dos ventos segredando tristezas  de árvores distantes
outros povos, outras  pegadas desconhecidas.


Resta-me o resto
Do meu rosto
Dos meus sonhos
Daquilo que me prometi
E não fiz, nem sei porque

Um amor roto
Uma meia sem par
A antiga loucura que jamais abandono
Mais dois tostões de vida
E um campo florido de toda esperança. 


The end. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dor sem rastros

Velejo em mares bravios, sem  saber nadar,
me encosto no deus Netuno, glorioso deus do mar...
Arranco enfeites supérfluos da minha casa dourada,
desenrosco calos da alma da vida inerte, desalmada.

Me encontro com marginais pedintes em plena avenida,
assovio canções tristes e me perco numa subida
da rua da aflição, entro numa rua contramão...
Sozinha, chorosa, escancaro minha solidão....

Consolo-me com o vinho, a água e o amor
assisto uma grande missa, cheia de louvor,
reencontro minha fé perdida, escondida...  
Regurgito a esperança numa terra banida...  


Perdida, cheia de feridas, numa rua  esvaída...
Procuro uma cachoeira e rezo pra minha padroeira,
ouço fascinação com o coração arrebatado,
deixo feridas abertas e  meu vestido desabotoado.

Busco minhas  raízes e me perco na escuridão
me escondo na infância e começo jogar botão,
dou um abraço em meus sentidos e rasgo meu vestido..
Fervorosa, sem escrúpulos, solto minha libido.

Oh! Amorosa vida que aqui me chama
exalo o odor da dor e caio na lama,
me deito no templo da perdição entre  afetos do coração,
deslizo na vida gloriosa, em pura comoção.


The end 

Memórias

Memória, bloco de gelo imersa no tempo...
Concretudes embalsamadas, abraçadas ao vento!
À noite arremessada pela Lua num céu em desalento,
de dia, assoprada como bolinhas de sabão ao relento.
 
Um tempo abstraído do cimento cortante,
perdido nas escadarias do cotidiano cinzento...
 
Me abstraio do tempo e entro em comunhão com a  solidão,
danço um solo na escada do tempo 
em seus cantos cheios de excrementos,
sou assistida por insetos solitários, perdidos em seus intentos,
dou uma pirueta e volto para os meus aposentos.
 
Cruzo essas intensidades e me deixo ser,
como pingos da chuva, que começam a escorrer
na lama da preguiça e do prazer...
Atravesso séculos, num voo infinito do renascer.
 
Sou dona do meu tempo e faço a vida girar,
de salto alto e vestido longo atravesso  o bravio mar,
assisto Maria Callas com violinos aos soluços,
sofro açoites do tempo e busco novos percursos.

 
The  end

Afetos transgressores


Atenção! Atenção!

Últimas notícias!
monstros soturnos atacam outra vez!

Tranquem as portas!
Travessias em erupções!
Explosão de vulcões!
Cabeças cortadas!
Duras penalidades!


Corro atrás dos meus sentidos,
me entrego aos deuses...
Sofro perjúrios, sou apedrejada...


Me arrasto em ruas escuras, num silencio glacial,
imobilizada sou jogada num beco sujo, úmido...
Sou desnudada e possuída por prazeres escondidos,
me esfrego em lamas barrentas...

Entro sem roupa no templo, procuro meu manto,
escorrego e me firo nos vitrais do sagrado,
um sangue escuro escorre de minha vagina,
desfaleço aos pés dos santos e de anjos desnudados...

Um anjo gigante de asas brancas fixa seus olhos em mim...
Me amedronto.

Um coro de vozes angelicais cobrem meu escoar,
nua, na igreja solitária, assombrosa,
vejo nuvens negras cobrindo meu rosto pálido, gelado...

Ajoelho, assustada, chorosa...

Imagens fortes, endurecidas me fixam nos olhos
assombrada, me encolho nas janelas de ferro,
aprisionada me debato com asas de algodão

Fixo meu olhar em anjos gigantes,
vejo suas asas fincadas em seus corpos,
fortes, acorrentados,
no escuro do firmamento

clamo sagrados louvores,
me penduro em falsos pendores,
como pêndulo, esvazio o tempo...

Congelo minha alma e faço calar essa cantiga de ninar,
antiga e triste que não para de gritar,
sem murmúrios, sem ruídos,
há um eterno silenciar.


 The  end