terça-feira, 10 de maio de 2011

Meu retrato

Sou


piegas, adocicada e melosa....


Danem-se os frios de alma, os não escolhidos...


me resguardo


me depuro


me repito


Sou....


chata, melódica-romântica


me alimento das reminiscências e dos pingos de chuva cristalinos


num céu de trovoadas e


de enchentes mil...


Sou 
filha das estrelas


e mãe da terra gentil


me comprazo na quietude do saber


e repouso na inquietude das aflições


corro atrás de devaneios e volto prás minhas indagações










pingo de chuva cristalino


filha da terra e das estrelas


caçadora de devaneios


comprazente do saber


retirante do véu do medo






amante por natureza


puta na afeição


dessas dou-me porque quero


não pelo que me dão






e se o afeto vier em trocados


devolvo em ouro de lei


pois sou mulher em caçada


de amor sem regra nem lei.






The end

terça-feira, 3 de maio de 2011

Romantismo em baixa ou céu degradê




Cai o véu de organza, a nuvem pendurada,
o céu escureceu e perdeu seu azul,
mas ele ficou mais bonito, escuro, degradê.

Saio dos escombros do romantismo
ilesa, forte, sã e salva...
Meu corpo recebe flechas cheias
de veneno da realidade,
meu sangue depura, renova e as expulsa.

Realidade imersa, submersa.
Negra, de uma negritude lustrosa, reluzente.
Saboreio morangos vermelhos, meio passados,
seu gosto ruim, azedo, não me surpreende.

Como diz Nietzsche:
 tudo que não me mata, me fortalece.
como diz o dito popular:
o que não mata, engorda..

Dou  tapas na escuridão,
em mosquitos venenosos,
zumbem  em  meu ouvido,
picam meus abraços,
ando perdida, sem abraços,
colo minha foto,num mural
e fico olhando, com um sabor de lirismo,
os abraços envoltos no meu.

Vou à cozinha e dou uma remexida
no meu doce de abóbora.
Está cozinhando, cozinhando.

de repente,

viro mulher aranha e como todos os mosquitos venenosos...
Crio uma barriga d’água e
fico exposta no circo de horrores.
Viro atração internacional.
Sou cumprimentada por grandes astros internacionais: Marcelo Mastraioni,
que ressuscita só pra me cumprimentar.
Sophia Loren, lindíssima, como sempre.

Vitório Gasmann,
Ressuscitado, me dá um beijo.
Ah! Sou beijada por astros internacionais.

E numa dessas, sou engolida
pelo Tubarão medíocre...
Corto sua barriga com meus dentes afiados, tratados (depois do bruxismo)
e emerjo, linda, em águas profundas,
como sereia.
Encantada, sou convidada para fazer o infantil, o mundo das sereias.

Vejo o tubarão, ensaguentado,
barrigudo, com dor
e morro de rir.
Um bruta monte, sem força,
sem charme nenhum,
nem sofrer ele sabe. Tapado!!!!

Bem,volto para minha realidade, abastecida.
Comi o tubarão (sozinha),
meu médico disse que precisava de fosfato.
Tenho fosfato para mais de dez mil anos.
Fico com a cabeça a mil,
mas o corpito de pequena sereia....
Sou convidada por Hollywood para dar palestras sobre romantismo em baixa.

Primeiro, digo:
elimina todas as estrelas com botox.
O produtor, muito encantado comigo,
segue meu conselho.
Fecha  Hollywood, afinal,
todas as estrelas eram botozadas.

Desanimado. me procura e
marcamos um encontro na
Terra do Nunca.
No dia, horário planejado...
Chega o dia...
Terra do nunca.

Mas o encontro não acontece e
nunca mais nos vemos.




                                                    The end

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Regresso

À noite acontece o retorno....
Pernoito...
Um corredor soturno acolhe estátuas enfileiradas de bronze
soldados com armaduras gigantes...
como   um fantasma oculto,
vislumbro tons melancólicos e sepulcrais


Atravesso o corredor e saio do outro lado da rua....

Há claridade. O sol está chamuscando...

Me defronto com a estátua de David de Michelangelo
me enterneço e vejo uma procissão de seres em devoção
veias latejantes saem de suas coxas e de suas mãos....
é o mármore transformado em vida....
enxergo marcas e vísceras....
contemplo-a....
passo a mão em meu rosto e sinto minha pele macia e quente.....
e penso...nos corações inquietos e pulsantes....
Há pulsação lá fora....

Caminho entre jardins verdejantes.....e vejo três pássaros azuis voando juntos....
Tento captar esse instante...
Do outro lado da rua, vejo árvores tristes e secas...
Penso em tolices e nos tolos..

arremesso uma bola ao longe....

no parque começa a escurecer...
um nevoeiro se aproxima e começo a congelar....
vejo velejadores guardando seus barcos....

metrópoles agitadas dão furos de reportagens....
sinto tremores internos....
penso nas idiosincrasias e incongruencias humanas...

atravesso a balsa....

lavo as cortinas sujas do meu quarto
assisto um filme em quarta dimensão
coloco um óculos colorido e me aposso da existência

choramingo...
fertilizo e me fortaleço, eliminando os nós de minha colcha rendada....
mentalizo a Índia e tomo um chá com amigos...
vejo o choramingar das árvores.....
Anoitece, as crianças voltam a dormir....
Limpo o quarto e faço a faxina da casa....
Espanto os mosquitos venenosos....
Fecho as janelas....
Tudo volta a adormecer......


                                       The   end

domingo, 17 de abril de 2011

Ramela nos olhos

Eu acredito em papai noel...
Tiro a ramela dos olhos,
me espreguiço no berço das ilusões,
acendo a luz do quarto escuro,
paredes cor de rosa, esburacadas...
O ursinho virou chimpanzé...
Dou longas passadas no tempo...
Delírios antigos,
estremeço nas convicções...

Chá de Mozart

Me contamino de venenos mórbidos exalados do social, vomito vísceras entaladas, como o fígado,pâncreas, baço...

Me refaço, mergulho na natureza e me recomponho com um chá medicinal Mozart, limpo meu fígado e minha vida de porcarias e quinquilharias; renasço com a nova nascente do rio, agonias do deserto, em quinta dimensão, transformo-o num oásis de fertilidades comandadas por mestres da poesia,da filosofia,da solidão...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ritual do amor



Meu canto de amor é como um gemido do blues: 
rasgado, sofrido, melodioso, perdido... 
como os apelos desencantados da vida.


Uma sensação...um ombro descoberto, um olhar.
Um coração em pulsação, um fio de esperança.Uma fagulha de desejo...
e o desaguar do coração...

O resto... são choramingos da razão,
das dores descobertas,
da exposição crua
da infelicidade de ser...

De afetos contaminados
de seres perecíveis...

Amor é dor,
dos afetos rotos
da morte prematura

é abstinencia da razão
clamores incinerados
perda de si mesmo

é o jardim dos esquecidos,
é a vitória desprogramada,

amor é odor,
incolor, onodor,tira dor

clamor silenciado
dos setenciados...
dos injustiçados...
dos injuriados
dos anestesiados
dos enfezados.

Os sintomas do amor são atemporais, universais....
O amor é a sentença da razão.

Você está preso!



The end


Filhos da imperfeição

Passo a mão em meu rosto e limpo névoas do cotidiano....
Vejo uma foto, eu eu meu irmão no jardim da luz,
sentados, em tenra infancia, de mãos dadas.
Adormeço no berço com nenês de dentes afiados,
sofro mordiscos prá esquecer as dores da perfeição.

Nos arredores do desajuste,
vou ao encontro dos escombros da infância,
dou uma volta em carrinhos quebrados,
em circos dos arredores,
jogo fora, meu saco de bonecas de pano,
brinco de casinha com maria manca,
amiguinha de infancia,
canto, oh canta cigana, comTerezinha de Jesus
filha da perfeição...

Entro em telas de filmes clássicos antigos,
no filme Ébrio,
Bebo nos botecos da esquina
com Vicente Celestino, e juntos cantamos Coração Materno.

Me fantasio de ébria das afilições e dos desatinos,
encontro maria lantejoulas, me empeteco de balangandãs,
e juntas vamos encontrar outras filhas da imperfeição,
Maria Manca, Junca Bebe-Bebe e Zé Ampulheta...
Formamos assim, o cordão...colorido, esgarçado.

The End