quarta-feira, 9 de maio de 2012

Imperfeição - Anticorpos da alma



(Em homenagem à Violeta Parra)

Eu não quero a perfeição

quero a imperfeição dos grãos de areia esparramados, inundando o mar

quero a terra vermelha, cheia de vermes, enrubescendo o horizonte

como o musgo das pedras que solidifica águas paradas


como o céu escuro, cheio de nuvens, quero o meu avesso...

quero as poeiras  férteis das sensações  que lubrificam os sentidos

como o olhar enevoado que acelera os sentimentos

como a merda expelida  que dá o toque de lavanda do corpo


como as cinzas do carvão que aquecem caminhos


Eu quero me divertir com a minha desgraça

como amores em vão, esquartejados na esquina do pecado

quero o sangue que escorre da alma, alimentando veias sanguinárias

eu quero o ser frágil em suas imperfeições e impermanências


No acovardamento  com as minhas decisões,

quero amargar  na decepção comigo mesma

o êxito para mim, tem um sentido adverso

Só no abandono consigo sentir a pulsação do existir

como um raio de sol obstruído pela noite que chega

"A minha vida é inteiramente fútil e inteiramente triste".

 

The end

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da menina que virou bicho




Cadê o gato?

o rato comeu..,.

cadê o rato?

voou pela janela, com os sonhos de menina


"Perdi, antes de nascer, o meu castelo antigo".

Só quando deslizo em lamas de ouro,

me esfria a saudade do céu azul com nuvens de cordeirinhos


do outro lado do muro,

Terezinha de Jesus canta em dueto com a menina de ovos de ouro:

A canção da cigana, do boi da cara preta

Na escola maculada, a menina desaprende o verbo e leva chicotadas

de megeras da alfabetização.


Entre risos e choros a menina aquece seus tormentos


À noite, abafa seus sonhos com cobertores pesados, fétidos,


Seus cachos encaracolados são cortados por tesouras gigantes de aço preto


no brejo, aproxima-se de um sapo... ao beijá-lo, o sapo vira jacaré e a engole...


A tragédia do primeiro ato se encerra, e a  a cortina se fecha,


pelos começam a grudar em seus devaneios


seus pés crescem e se petrificam


seus olhos se congelam,


e seu rosto vira uma máscara de ferro

 

o horizonte é cortado por vértices afiadas,

a menina se debruça em  névoa molhada,

seus ídolos caem em mortalhas

nesse calvário, sem nobreza,

o  enterro da menina acontece num dia de chuva...

 


                                                                  The end

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Gotas de sangue



Gotas de sangue

escorrem da melancolia,

do dia que se foi,

do frescor adiado,

do mel que virou melado



retiro-me do ar!

para o aconchego

de ninhos sem ninhadas

de passarelas amargas,

sem brilhos, opacas.



Como gotas de licores afrodisíacos

esvaindo de buracos sagrados

jogo a minha emoção

em águas de bacias mornas


Estou morrendo...
 
fantasio a morte em cenas impróprias para menores de 80 anos


subo no monte de Narayama

bucar a dignidade na balada de Kurosawa

despenco no Weekend à Francesa, de Godard

me despejo nos cânticos de Maria Callas


vejo a minha lucidez endividada

com amanhãs inexistes, em fumaças sujas, disformes,

como espectros atormentados


Estou em ruínas


Me enrolo embaixo de cobertores abafados,


sigo em caminhos, a túmulos sem fim...



                                                           The end

terça-feira, 17 de abril de 2012

Prazeres permitidos



Bem perto de ti, meu prazer reacende,
como uma tocha ardendo num escuro ardiloso
clamando desejos pervertidos,

braços estendidos, mãos buscando afagos,
no simulacro das sensações
encontro nós obscuros, emaranhados,

na fluência das emoções
flechas venenosas espalham seu fogo
em carnes penduradas,

Entre fúrias e sons! bocas em babas!
faíscas ferem o ar tenso, em gozo...

Nessa morada giratória de soluços devassos...
Tateando areias movediças,
Saio escorregadia, quase ilesa,
deslizando na ladeira do prazer...


                                                              The end

Cantiga rosnada



Eu não te dou o meu sorriso

Te dou a minha mão, o meu corpo,

mas meu sorriso eu levo comigo,

no túmulo, sem rédeas,

como o rosnado de cães


grrrgrrrrrrrrrrrrr rrrrrrrrr
grrgrgrrgr rrr grrr balbúrdia, regrf
rrr rrr sbgr
num ghr grrgrrgrrgr


minhas mãos não alcançam seu corpo,
meus braços encurtaram, estão imobilizados

Hostilizo sua presença
Seus clamores são em vão

Vá, cambalear nas ruas

Caia! quero ver os cães ladrarem sua presença,
lamberem os seus beiços

Rumino seu desencanto
Como fontes de planícies sem luminosidade

Hoje eu não quero ser amada!
Hoje eu quero pisar no seu corpo,
Hoje, eu sou o momento.



                                                              The End

terça-feira, 20 de março de 2012

Sensações




Existe um cadáver assombroso  e insepulto das minhas sensações

que me persegue, que flutua submerso em memórias, in memorian...


um paradoxo entre alegrias flutuantes e meu pesar, triste, doentio...


de pedaços de vida, esfumaçados, petrificados, cheios de pesticidas...


como carnes penduradas diante de abutres temerosos


vou escalando montanhas perigosas, em terrores escondidos



Minha alma oculta está no precipício das ilusões


como um tédio jorrado  da  maestria da vida


E assim, vou  me ocultando...


entre pesares e dissoluções,


meu  ser se transforma em  fios de fumaças pendurados


em esquinas que dobram,


flutuam, desaparecem...

e mais nada...


 
                                                      The end






terça-feira, 13 de março de 2012

Violino tombado

Meu coração chora como um violino desafinado...

lamentando acordes que não virão...

como o silêncio desabrigado

como flores sem tons, sem cores

Há um grande cansaço na alma do meu coração

Vivo romances da nobreza, em ficção...

como o violino tocado sem dedos,

como faces tombadas sem risos

São as condolências da razão

Aumentamos intensidades...

mas o coração quebrado com o cadeado arrombado, desconhece

as razões da paixão...

Findamos o existir, arrastando, quase sem fôlego...

Somos marcados com máscaras de ferro...

Viramos soldados do inferno

Defendemos batalhas inglórias

É a esperança com reticências...

São os favores do amor

É o fim da espécie amorosa, sem frison,

Sem som, sem clarão,

Em plena escuridão.

 
The end