quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

De Profundis



No real, dentro do trivial
conversas paralelas
descascam favas
acampando entre caras-pálidas

do outro lado da rua
práticas superficiais
subvertem feições
dos sem identidades
que buscam o pão amanhecido
da vida sem passado

sem retóricas
passo a passo
caminham em ralos entupidos
semeiam uma cabeça baixa
um olhar vazio
um choro recolhido

No fundo do poço
mora uma andorinha
que não se permite voar

nas quebradas, existe um justiçeiro
que amansa jagunços
com varas de pescar

a superfície não permite
o de profundis
os calos doem
as almas estão deserdadas

Cabe então
amansar a lama ou voar
num voo raso
sem ordenanças
até atingir a estrada?


the end

A arte



oh arte vem me salvar das animosidades do cotidiano
não queria ser feita dessa massa espúria
cheia de cabelos e ranhos
gostaria de estar nos cardápios salutares
voar com Baudelaire, Rimbaud e Rilke
corpo congelado,alma perambulando,sorriso desencantado
como ramos secos
dona da vida
encarecidamente te peço
estou sendo mutilada
pela tortura vazia do cotidiano
quero o gozo das vitórias nuas
o movimento do corpo sem naufrágio
rodelas de batatinha em minha testa
para curar minha dor de cabeça
Quero ser invadida por dom-quixotes!
tampar buracos da mente
e voltar no tempo
assoprar as velinhas dos 10 anos
e
em climas sinestésicos
subir em caldeirões
ver
o
caos
de
megeras da alfabetização
penduradas em giz branco
enforcadas
estarrecidas!

The End

Pazes com a criança




um homem chora inesperadamente
a alma mobiliza todos os tormentos
às vezes somos tão indefesos...
a doença nos transforma em crianças
visito meu sótão interno
tudo é tão insalubre, imperfeito
vivemos enjaulados
sujo minhas fraldas e volto para o meu universo desaparelhado


the end

Cabides vazios e a menina foi embora



Vestida de mulher
com o rosto de menina
brejeira, manhosa

Um dia essa menina desapareceu...

Ficaram suas fitas
sua coragem
sua ternura faceira

um dia reapareceu

sua face rasgada
seus olhos de vidro
sua máscara borrada
de batom,
olhos marejados
alegria perturbada
e o seu fim aconteceu...




Para minha querida mãe, in memorian, falecida em 25 de junho de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Vira-lata




Chega
das caretices e dos puxa saquismos
das divindades caídas
dos reinos unidos fragmentados
dessa porra desse computador 

Ai que saudades

das simplicidades sem vistorias
de águas paradas, porém,
livres e libertas
da negra do cachimbo
do sertão agreste
sem veredas
das tabernas
de Máximo Gorki

da merda sem parasitas
do homem
do humano
que escarrou e sujou o tempo
embaçou os vidros
com seu hálito fétido

medidas inexpressivas
fazem
essa espécie híbrida,
incapaz, sonolenta,
sorrir.
com seus dentes amarelados, cheio de cáries...

eu vou pra Tucumã
aliciar meus tormentos
dormir com as cabras
e fuder com os jumentos


The End

Sem garantias




pescoço duro
febres amarelas
sem dinheiro no bolso
amarga o dia que chega

roleta russa
e os meninos despencam dos morros
mato o jacaré
engulo o leãozinho

e sou fuzilado em praça pública



The End

terça-feira, 29 de abril de 2014

Oitavo sacramento




santificar o jumento que habita em si
consumo desregrado
e
as  regras saem em espumas


abusos te consomem
e
tripas costuradas
eclodem 

porão interno
cão sardento

o Senhor é meu pastor e nada me faltará...



The End