terça-feira, 29 de abril de 2014

Oitavo sacramento




santificar o jumento que habita em si
consumo desregrado
e
as  regras saem em espumas


abusos te consomem
e
tripas costuradas
eclodem 

porão interno
cão sardento

o Senhor é meu pastor e nada me faltará...



The End

terça-feira, 25 de março de 2014

Um retrato caído




pedaços de um rosto
pulam da moldura quebrada
uma sobrancelha pintada
um pedaço de olho
a boca ressecada

um vulto, 
a foto rompe
os limites de uma vida em conservas
como: tomates secos
            prato feito...

Uma ventania e a ruptura de barcos quebrados
impedem a longa viagem
É a aventura humana da existência

Em berços vazios encontramos o esconderijo de Gilbratar, 
abraços escondidos e um sorriso escancarado
É a onda do viver...

Natal é muito chato, ainda bem que já passou...



The end

                                 

                    

quarta-feira, 12 de março de 2014

Cotidiano



olhares sombrios, sem expressão
mãos caídas
pernas compridas
caminham
em suas tarefas inexpressivas, alimentando o sistema bizarro
e os velhos com seus rostos deformados
como caricaturas,
caminham, silenciosamente, entre seus narizes compridos e empelotados


 
The End

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Saudações




Uma luz lá no céu
e tem gente que vive de teimoso

persuasões e solicitações
e mais uma vez você tem que se decidir

mas como?
a luz da ribanceira se apaga
e o dinheiro é uma praga

e você como vai?

os cortiços empilhados
a tv tirando o espaço da janela

os indivíduos se individualizam
a gente aterriza em terras estranhas

é a nossa salvação?

somos todos solitários, nesse solilóquio amoroso...

e lembre-se
"só o inimigo não trai nunca"



The End




Esqueletos




E eles passam
sonâmbulos, pendurados
no porvir da dimensão humana

subtraíram o mor
e eu ainda sei de cor
a frase que li ontem

O Senac pode mudar a sua vida
faça já a sua inscrição


The End

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sem palavras




O vento levou as minhas palavras. Ficou uma, 
o vazio
Passo a mão no meu corpo e sinto meus órgãos internos
Passeio agora sobre eles, sinto meu intestino, minha barriga, minha boca que se fecha, e vejo a brisa pela janela. Passo a língua no céu da boca, e respiro o vazio, o nada.
Sensações antigas me visitam. Me sento com elas e me remeto às lembranças...
pai, irmão, que já se foram, e penso, nas pessoas que restaram.
Coloco minha boca à disposição do lanche que ora me aguarda. Sinto o pão entre meus dentes, o chá quente queimando meus lábios. Olho pro nada. Consinto o desespero, suave...
Consinto as imagens que ora aparecem. Franzo a testa e novamente me viro para a brisa.
Consinto todos os sentimentos, são meus, é a minha barganha com a vida.
Vida chula, tola, leve como a bola que rola. Deixa rolar. Chega de grandes tensões, de grandes paixões.
Dou passagem para o artificial, dou corda à ele. Faminto, ele conduz esse meu doce vazio.



The End 

O legado do meu pai



um canivete
uma calçadeira
e uma caixa de moedas antigas

um sonho 

no boteco,
o seu truco
com amigos em boemias

seu brilho no jogo de bilhar
sua integridade
e seus bigodes a la Bievenido Granda

seus sapatos engrachados
suas gravatas listradas
e sua amorosidade ímpar

simplicidade, humanidade
trejeitos no caminhar
suas costas arcadas

pai! pai!
eu estou aqui

visto sua camisa e me sinto acolhida
em seu abraço e sua candura


The End